No teste realizado na Fazenda Conectada Case IH, em Água Boa (MT), o drone de aplicação P150 operou durante 24 horas ininterruptas em condições reais de lavoura. Nesse período, realizou 147 voos, cobriu 892 hectares e aplicou 7.039 litros de produto com 98,9% de acurácia na taxa de aplicação, evidenciando alta regularidade operacional. A taxa média foi de 8 l/ha, com 18h45 de voo efetivo, velocidade de 64 km/h, altura de 6 m e faixa de 11 m, resultando em rendimento médio de 37 ha/h e picos de até 51 ha/h. Em termos práticos, é a prova de que um único drone consegue entregar, em um dia, a mesma área que antes exigia vários ciclos de pulverizador costal, com muito mais segurança para o operador.
Além da capacidade do tanque de 70 litros, o desempenho está ligado ao desenho do sistema de pulverização e à eletrônica embarcada. O P150 foi projetado para grandes demandas, com rendimento operacional divulgado de até 26 ha/h em condições típicas, o que se confirmou e até foi superado em momentos do desafio. Pit stops de reabastecimento de apenas 22 segundos mostram como layout de base, logística de mistura e automação do drone podem transformar horas paradas em área efetivamente tratada.
Tecnologias embarcadas: da leitura do terreno à precisão na gota
O P150 não é apenas um “tanque voador”; a diferença está no pacote tecnológico que sustenta a aplicação. O equipamento faz mapeamento de terreno em tempo real em três dimensões, combinando ferramentas de geoprocessamento com um radar de imagem 4D, capaz de detectar obstáculos e limites da área, além de ajustar automaticamente a altura de voo em terrenos com declive. Na prática, isso reduz falhas de cobertura em morros e baixadas e diminui o risco de colisão com árvores, postes e estruturas dentro da lavoura.
Nos sistemas de pulverização, o controle de vazão e de tamanho de gota é o coração da eficiência. O P150 opera com vazão de até 30 l/min e faixa de pulverização típica entre 8 e 12 metros, permitindo trabalhar com gotas de 60 µm (finas) até 400 µm (grossas), de acordo com o bico e a regulagem adotados. Em regiões sujeitas a vento, o produtor pode optar por gotas mais grossas para reduzir deriva; em aplicações mais localizadas ou de fungicidas, ajustar para gotas mais finas melhora a cobertura de alvos como ferrugem-asiática e percevejos.
Ganhos reais: produtividade, segurança e sustentabilidade
Estudos da Embrapa Soja mostram que drones conseguem melhorar a penetração do produto na parte interna da planta de soja, alcançando desempenho semelhante ou superior à pulverização tratorizada em controle de pragas como percevejo-marrom e lagarta-falsa-medideira. Ao aplicar de cima para baixo, com fluxo de ar e altura controlada, o drone reduz o sombreamento de folhas e favorece a deposição em ramos e vagens, onde grande parte das pragas se concentra. Em paralelo, a eliminação do amassamento da cultura por pneus de trator preserva linhas produtivas, o que pode representar ganhos de até alguns sacos por hectare em áreas de alta produtividade.
Os benefícios vão além da produtividade. Entre os principais ganhos práticos para o produtor estão:
- Retirada do aplicador de dentro da lavoura, reduzindo exposição direta a calda e riscos de intoxicação.
- Menor consumo de água, com caldas mais concentradas, o que reduz logística e custo por hectare.
- Capacidade de operar em solos encharcados ou recém-adubados, sem depender de umidade ou porte do trator.
- Complemento à pulverização com trator ou avião em áreas de bordadura, curvas de nível, terraços e talhões recortados.
Do ponto de vista ambiental, o uso de drones se alinha à agricultura de baixo carbono. A tecnologia reduz o uso de combustíveis fósseis em relação a máquinas pesadas, diminui a área amassada (que é ponto de erosão e perda de carbono) e permite aplicação localizada somente onde o problema está, quando integrada a mapas gerados por imagens multiespectrais, NDVI e outros índices de vegetação. NDVI, por exemplo, é um índice que mede a “saúde” da planta a partir da reflexão da luz infravermelha próxima; áreas com NDVI mais baixo podem receber doses diferenciadas de fungicidas ou fertilizantes foliares via drone, evitando desperdício em talhões já equilibrados.
Mato Grosso e o avanço dos drones de aplicação no Brasil
Mato Grosso é um dos estados onde a pulverização com drones mais cresce, impulsionada por grandes áreas de soja, milho e algodão. Dados da ANAC mostram que o Brasil já registra milhões de aeronaves remotamente pilotadas em uso geral, enquanto importações de drones de pulverização superaram 8 mil unidades entre 2020 e 2023, com expectativa de superar 90 mil até 2026. Em eventos como o AgDrone-MT, em Sinop, produtores, empresas e Embrapa discutem justamente como integrar pulverização, monitoramento multiespectral e manejo de pastagens com drones, reforçando o papel da tecnologia em um ecossistema digital de produção.
Na prática, prestadores de serviço já relatam operações acima de 3.000 hectares pulverizados apenas com drones em fazendas de MT, utilizando frotas de equipamentos para escalonar serviços. Em muitas propriedades, o drone de aplicação entra primeiro em áreas de difícil acesso e bordas sensíveis, e, conforme a equipe ganha confiança nos resultados, passa a assumir aplicações de alto valor, como produtos biológicos, reguladores de crescimento e tratamentos emergenciais de pragas. Com drones capazes de pulverizar mais de 100 hectares por dia, o modelo de negócio para empresas especializadas tende a se consolidar como alternativa competitiva frente à pulverização terrestre e aérea tradicional.