O que aconteceu em Goiás
Em Leopoldo de Bulhões, região goiana marcada por pecuária e horticultura, um produtor rural aplicou herbicida em área de pastagem usando um drone agrícola. A névoa do produto não ficou restrita ao alvo e atingiu a propriedade vizinha, destruindo cerca de 10 hectares de eucalipto (aproximadamente 40 mil plantas) e 8 hectares de chuchu em plena produção.
O produtor prejudicado estima prejuízo próximo de R$ 1 milhão, somando o investimento no plantio de eucalipto (cerca de R$ 350 a 400 mil) e a receita perdida com a horta, que colhia em torno de mil caixas semanais de chuchu.
Onde o drone “errou” na pulverização
O problema não está no drone em si, mas em como a aplicação foi planejada e executada. Em pulverização aérea, seja com drone, avião ou trator pulverizador, fatores como velocidade e direção do vento, altura de voo, tipo de bico, tamanho de gota e condições de temperatura e umidade determinam o risco de deriva, ou seja, o desvio das gotas para fora da área alvo. Comentários de profissionais com experiência em defensivos levantam hipóteses como uso de herbicidas altamente voláteis (como formulações de 2,4-D), falta de adjuvantes antideriva e descuido com clima e distância de segurança em relação às culturas sensíveis.
No caso mostrado, tudo indica que a calda foi aplicada em condições que favoreceram a formação de névoa fina, carregada pelo vento até a lavoura vizinha, atingindo culturas extremamente sensíveis ao produto utilizado.
Como usar drones de pulverização com segurança
Drones agrícolas podem trazer ganhos reais de precisão, economia de insumos e segurança do operador, mas exigem protocolo técnico rígido. Para reduzir o risco de derivas e conflitos entre vizinhos, alguns cuidados são fundamentais:
- Definir faixas de proteção: mapear no software de missão as áreas sensíveis ao redor (hortas, frutíferas, eucalipto, café, hortaliças) e manter distâncias de segurança, interrompendo a aplicação quando o vento muda.
- Ajustar altura e bicos: operar o drone o mais baixo possível dentro das recomendações do fabricante e usar bicos que gerem gotas maiores, menos suscetíveis ao vento.
- Monitorar clima em tempo real: evitar aplicações com vento acima dos limites recomendados, alta temperatura e baixa umidade relativa, que aumentam a deriva e a evaporação.
- Usar adjuvantes corretos: incorporar produtos antideriva e óleos adequados na calda, conforme receituário agronômico, reduzindo a formação de névoa.
- Ter responsável técnico: contar com engenheiro agrônomo e operador treinado, com registro e documentação da aplicação, é essencial para garantir segurança e respaldo em caso de investigação.
Consequências técnicas e legais para o produtor
Além da perda de produtividade e da necessidade de replantio, casos como esse tendem a acabar em boletim de ocorrência, perícia e disputa judicial. Na reportagem, a polícia científica coletou amostras das plantas para identificar o produto e verificar se houve dolo eventual, ou seja, se o responsável teria assumido o risco ao aplicar o defensivo em condições inadequadas.
Se a perícia comprovar erro de manejo ou descumprimento de recomendações técnicas, o operador ou o responsável pela receita agronômica podem responder por dano qualificado ao patrimônio, com obrigação de indenizar o vizinho. Para quem trabalha com drones agrícolas, o recado é claro: profissionalizar a operação, registrar dados de voo e seguir critérios técnicos não é opcional; é a única forma de evitar prejuízos milionários e preservar a boa convivência no campo.
Fontes e Referências
- Record Goiás – “Uso de drone causa prejuízo de até R$ 1 milhão” – https://www.youtube.com/watch?v=bxVPHuW4a_U
- Embrapa – Publicações sobre deriva de agrotóxicos e boas práticas de aplicação – https://www.embrapa.br
- MAPA – Ministério da Agricultura e Pecuária – Normas e orientações sobre uso de defensivos agrícolas – https://www.gov.br/agricultura
- CREA – Conselho Regional de Engenharia e Agronomia – Informações sobre responsabilidade técnica em aplicações de defensivos – https://www.confea.org.br/creas
- ANAC – Agência Nacional de Aviação Civil – Regras gerais para operações com RPA e VANT no Brasil – https://www.gov.br/anac
- DECEA – Departamento de Controle do Espaço Aéreo – Regras de acesso ao espaço aéreo para aeronaves remotamente pilotadas – https://www.decea.mil.br
- FAO – Food and Agriculture Organization – Documentos técnicos sobre aplicação aérea e mitigação de deriva – https://www.fao.org
- Fabricantes de drones agrícolas (DJI Agriculture, XAG, entre outros) – Manuais e recomendações de pulverização – https://www.dji.com/ | https://www.xag-global.com